“Nossos mortos sempre retornam. É bom que você esteja pronto quando isto acontecer. E fazer a coisa certa.”
Este é o leitmotiv do conto escrito por Zanthos Aybrom e adaptado para BD por Daniel Santos.
“Muertos” é uma história sombria. Sombria no tema, no argumento, nos desenhos.
Começa com um sonho. Luís sonha que está em casa, acorda, ouve as cadelas (Sofia e Sandra) que querem passear. Desce as escadas e começa a notar transformações na casa. Tudo fica com melhor aspecto e as cadelas também sentem a mudança e ficam quietas.
De súbito, ele acorda e ficamos a saber que está no Paraguai, num hotel barato em Puerto Corriente “uma cidadezinha miserável de uns dois mil habitantes, sem calçamento, sem esgoto e sem esperança.” Tem uma missão: fazer uma entrega de dinheiro por conta da família Jamal, para quem trabalha como “mula”.
Ao rever o mapa para confirmar o itinerário sentiu “aquela velha sensação perigosa de descuido” ao observar um ponto que indicava uma vila que não devia estar lá: “Muertos”. Este nome parece ser comum, diz o autor, e refere-se ao facto de durante a Guerra do Paraguai as tropas brasileiras e argentinas juntarem os homens e mulheres jovens num povoado “para matá-los mais controladamente”.
O “mula”, rindo, lembra “o rosto indignado das pessoas normais quando falam do massacre de Judeus na segunda Guerra. Poucos sabem que seus bisavós fizeram coisa muito pior.”
Apesar do desconforto que sente, sabe que tem de continuar e parar em Muertos. Aí irá encontrar-se com o seu passado, enfrentando velhos inimigos e reencontrando uma parte (feliz) da sua vida. Mas não terá sido esta paragem mais um sonho? A dúvida fica mas o que Luís sabe é que a felicidade que cabia na “caçamba” do camião de plástico com que brincava quando era criança, não a terá mais.
O estilo do texto escrito na 1ª pessoa, atinge-nos em cheio pela sua secura e alguma crueza. São as dúvidas, ansiedades, desejos do personagem apresentados numa linguagem comum, vulgar até, sem floreados literários. Os desenhos, feitos de muita sombra, negrume mesmo, e pouca luz, ajudam a criar o ambiente de desencanto e tristeza, fatalismo até, que perpassa pela história.
“Muertos” é uma prova que BD/HQ pode ser mais do que simples entretenimento ou leitura infanto-juvenil.
Tire a prova você mesmo, não custa nada. Mas nada mesmo. Ao contrário das crónicas anteriores, o “livro” de que falamos hoje não foi comprado nem lido em papel. Está disponível para quem o quiser ler no site do autor.
Sinta sem receio “aquela velha sensação perigosa de descuido” e visite “Muertos” (http://ds.art.br/hqs/muertos/)
“Muertos”
Texto e desenhos de Daniel Santos, baseado num conto de Zanthos Aybrom

4 comments
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06 Abril, 2009 às 18:12
Bongop
Filipe
Se tiveres interessado no livro em papel, eu posso-te fornecer um. O Daniel teve a amabilidade de me mandar mais que um.
Excelente livro!
06 Abril, 2009 às 21:20
Filipe
Nuno, agradeço a tua oferta. Gostaria muito de ter “Muertos” em papel. Diz-me o valor da revista e dos portes e faço-te uma transferência ou pago à cobrança.
07 Abril, 2009 às 16:39
Bongop
O livro não me pagas, foi oferta do Daniel. Fizemos uma troca, eu enviei um exemplar do “Murmurios das Profundezas” e o Daniel enviou o “Muertos”! Só que ele enviou mais que um exemplar. Por isso não te cobro nada!
07 Abril, 2009 às 16:39
Bongop
Manda-me a tua morada.